sábado, maio 08, 2004

Bon appétit, mes chers!

Eu podia contar-vos histórias engraçadas... Podia relatar-vos aquele dia em que tive de saltar o portão cá de casa, à chuva, em esforço olímpico para não resvalar pelo muro abaixo e molhar-me ainda mais do que já estava, para depois vir a descobrir que tinha as chaves de casa no bolso.

Também podia falar-vos da corja que esta semana se andou a passear pela cidade com a mania que sabe muito de muita coisa, mas que, no fim de contas, não passam duns gnus com capas pretas e fitas a dizer "Zé, és o maior!", "Nela, és a minha Cinderela!" e incongruências afins, que se entretêm a demonstrar publicamente aquilo que todo o ano andam a fazer (embora digam aos pais e aos amigos que "Ai... Isto agora é que é...") : apanhar bebedeiras de cova a caixão, dar umas quecas e atrasar o trânsito.

Mas não. Hoje, vou a um jantar que era para ser no "Varandas da Barra" ou lá o caraças, na Foz, mas afinal vai ser no Cais de Gaia. É um desses jantares com hordes de pitas fluorescentes para quem basta alguém vestir-se de preto para acharem que tem um conceito de moda "out". Um desses jantares onde se fazem assombrosos relatórios das novas colecções da Mango, Stradivarius, (da primeira vez que as ouvi falar desta loja, até as lágrimas me vieram aos olhos - "Stradivarius! Vão falar de violinos! De um instrumento que não é usado nas músicas que passam no Via Rápida ou no Estado Novo! REJUBILEMOS E DEMOS GRAÇAS A JOSHUA!". Rapidamente me apercebi do meu erro.) Maluka, Bershka, Ekstra e Zara, pormenorizando cores, tecidos, texturas, acessórios e novas tendências. Um desses jantares onde a mínima referência a temas como "Actualidade" ou "Política" têm como resposta leves farfalhares de vastas cabeleiras aloiradas pelas pranchas de surf ou pelos cabeleireiros. Um desses jantares onde ninguém arrota nem ninguém diz "Fuoda-se, Manel, esta merda é cara comó caralho... Antes tibéssemos ido ao Xapau...". Um desses jantares onde cumprimentar alguém com dois beijos é crime com direito a morte por enforcamento.

É um desses jantares em que só nos apetece que os ovos cozidos sejam os olhos do gajo que está na mesa à nossa frente, que a base dos canapés sejam unhas dos pés arrancadas a alguém com alicates e que a mousse de manga seja bílis, solenemente acrescentada a gelatina, depois de ser extraída por um tubo bem largo, espetado de uma só vez no fígado do empregado de mesa, numa operação em que, misteriosamente, a anestesia foi trocada por água de rosas. Infelizmente, as probabilidades de todas estas belíssimas suposições se tornarem realidade é baixíssima.

Por isso, julgo que o ponto alto desta noite será realmente a discussão do nome do queijo que nos servem (Ah, qual Cheddar, qual Brie... Raspas de plantas dos pés, mas é...) e na qualidade da massa (Oh, sim... Cerebrini Cortadini ai Pedaccini...) e da bolognesa ( Engraçado... Achas que é do tomate? Olha que eu quase apostava que era soda cáustica... Mas pronto, se tu o dizes...).

Não sei porque é que ainda vou a estas coisas...

Sou quem sabeis, Maria Cachucha